domingo, setembro 25, 2016

"‘Oi Alice, sou eu, Louis. Me desculpe ter te atendido daquela maneira...’
‘Ah, tudo bem. Eu fiquei sabendo que vocês estavam em turnê quando estava em Los Angeles. Aí quando cheguei aqui, liguei pra Mike pra saber se ele tinha alguma noticia de vocês e ele tinha seu número e eu pedi e ele me passou. Desculpa ter tomado essa liberdade...’
‘Não! Problema nenhum! É que não nos falamos há tanto tempo e por isso não te passei o número e...’
‘Sim, faz um ano que não te vejo...’
‘Tudo isso?’
‘Sim. Eu sinto falta de conversar com você, às vezes...’ – aquela frase me balançou, me fazendo sorrir que nem um garoto bobo
‘É, eu também. Mas você sempre está com Matthew e...’ – e eu ainda tinha ciúmes, mas ela me cortou
‘É, eu sei. Me afastei. Sou uma idiota mesmo. Mas você também está namorando, se afastou de mim...’ – parecia triste
‘Ah, sim. Mas somos amigos, não somos?’ – afinal, era o que talvez tivesse me restado
‘Sim, somos. Está sozinho?’
‘Sim. Quero dizer, não. Bom, no hotel, agora sim’
‘Bom, bom...’
‘E você?’
‘Eu também...’
‘Voltou a Seattle pra ver seus amigos? Está de folga das gravações? Ouvi dizer que você estava com Matthew em Los Angeles...’
‘Não há gravação, Louis’
‘Ah, já acabaram?’
‘Não. Não fui convidada pra participar delas, até entrei no estúdio com Matthew, mas aí aconteceram coisas e eu fui embora’
‘Como assim?’
‘Matthew tinha outro produtor e um novo guitarrista que era fixo com ele, não fui com a cara do cara desde o começo, mas até aí, tudo bem. Eu até ia até o estúdio, aprender um pouco, como sempre gostei. Esse guitarrista de Matthew foi falando um monte de coisas pra mim e um dia brigamos. Feio mesmo, como nunca tinha feito com ninguém. Aí falei pra Matthew que não voltaria lá mais’ – a voz de Alice ficou tremula do outro lado
‘Pera, Matthew não te quis trabalhando com ele? E depois te deixou voltar pra Seattle sem dizer nada?’ – eu tinha ficado surpreso
‘Não, e disse pra que eu não lhe atrapalhasse mais, que aquilo era ruim pras gravações’
‘Como é que é?’
‘Mas isso ainda não fez com que eu voltasse pra casa’
‘Não?’ – algo tinha de errado nessa história toda
‘Não. Tem coisa pior...’ – Alice soava muito triste do outro lado, um pouco nervosa
‘Pior?’
‘Sim. Matthew e eu. Bem, não estamos mais juntos. Voltei pra casa...’
‘O que?’ – eu não sabia se ria, chorava ou me desesperava porque sabia que ela devia estar sofrendo
‘Sim. Terminei com Matthew.  Descobri que ele tinha outra...’
‘O que? Como? Como soube?’ – como se pudesse ficar surpreso com isso, era Matthew, ele não tinha mudado
‘Eu não sei. Eu o vi saindo com uma outra mulher um dia que cheguei de surpresa no estúdio pra espera-lo. Mesmo tendo saído das gravações, ainda estávamos juntos.  Aí aconteceu isso e...’
‘Alice, eu...eu...’ – eu não sabia o que falar, por mais que eu achasse que ele não tinha mudado, tinha magoado ela, sentia raiva
‘Ele negou. Óbvio. Negou tudo. E eu acreditei, ficando em Los Angeles mais uns dias, mas decidi segui-lo, tive raiva, sabe? Enlouqueci com aquilo na minha cabeça, aí vi ele entrando com a mesma garota em um restaurante, de mãos dadas com ela. Antes de entrarem ele a beijou e...’
Alice explodiu em choro, um soluçar dolorido. Minha menina era a mesma, eu ainda sabia disso, ainda sonhava com a realidade que não lhe circundava, aquilo me trazia lágrimas nos olhos.
‘Alice, olha, não fica assim. Eu sei que não deve ser fácil. Mas eu estou aqui, se precisar de mim, eu...’ – eu queria pegá-la no colo, como ainda a amava, era impressionante"

segunda-feira, agosto 15, 2016

Sugar

Por que choras?!? O que eu disse é tudo verdade sim. É, eu acho que deveríamos nos tornar os criminosos mais procurados do mundo e as pessoas iriam nos abrir a porta porque somos bonzinhos.

Eu vi isso naquele filme uma vez, lembra? Você disse que eu seria uma perfeita assaltante, porque ninguém desconfiaria de mim.

Estranho? Por quê?!?. Assim, eu largaria essa vida pacata e você...bem, você se tornaria um fora da lei....

Te agrada a idéia? Claro, claro que sim. Aí, se o FBI correse atrás de nós, poderíamos pintar nossos cabelos, mudar de nome e ir morar no México, o que acha?

E por que você acha que me apaixonei por ti? Pelas calças rasgadas e as botas sujas? Não, mas pelo seu jeito misterioso de olhar.

Não é assim? Pois bem, vá lá agora em frente ao espelho e veja. Vá, veja! É tudo mentira minha? Ah, pelo seu jeito sexy de andar? Não seja convencido e patético.

Vamos, pelo menos você riu de minha teoria. Não pode? E por que não pode? Você me dá a vida que quero e acha que eu tenho direito de cobrar mais? É, você não existe, deixa eu ver se você atravessa.

Gosto desse jeito seu de sorrir. O quê? Vai, fica sorrindo pra todas essas garotas aí, fica. Fica debochando de mim e dizendo o quanto você é importante.

Eu não ligo, porque é pra mim que você volta todas as noites e me diz aquelas coisas que tenho até vergonha de pronunciar.

Não?!?É verdade. Pode parecer que não, mas pra que mudar agora?

Só se você aceitar minha teoria e a gente mudar pro Tahiti. Não, o México tem terremoto.


Claro que sim e vou estar aqui, sempre.

terça-feira, agosto 02, 2016

"Matthew e eu terminamos tudo já era madrugada adentro. Estávamos os dois visivelmente cansados, mas felizes.
‘Pronto, chega! Beberemos ao fim!’ – e ele se levantou indo pegar a garrafa de vinho
Matthew abriu então a garrafa de vinho e deu um gole na boca da garrafa
‘Desculpe, esqueci as taças. Se importa?’
‘Não, não me importo’
Matthew se sentou ao meu lado e passou a garrafa de vinho
‘Estou feliz, Alice. Conseguimos terminar tudo e dentro do prazo previsto’
‘Sim. E seu ritmo frenético ajuda’
‘Eu sei, sou muito workaholic. Vai ver que é porque eu gosto do que eu faço. E você, gosta?’
‘Adoro. Falava pro Louis que sentiria falta do estúdio, sempre’
‘Acredito que sim. Louis tinha razão, você é competente e aprende rápido’
‘Vocês são muito generosos’
‘Mas você é assim mesmo. Não tem nada de generosidade. Acho que já percebeu que eu sou muito sincero’
‘Um pouco’ – e sorri olhando pra ele
Matthew passou novamente a garrafa de vinho pra mim e me olhou sério.
‘Hoje é meu aniversário’
‘Nossa! Parabéns! Não tem nem como apagar uma velinha!’
‘Não faz mal, depois dos trinta a única coisa que vale é que as pessoas se lembrem de você com carinho’
‘É, as pessoas dizem que param de contar os anos. Mas deixa pelo menos eu te dar um abraço’
Matthew me abraçou forte, todo carinhoso e continuamos a beber o vinho.
Já meio tonta, me encostei no sofá e fechei meus olhos. Pude sentir então Matthew se aproximar de meu corpo, encostando o seu braço no meu e deitando também a sua cabeça no sofá.
‘Acho que tenho que ir embora’ – falei sem conseguir abrir o olho
‘Fica mais um pouco, está quase acabando o vinho. Toma mais’
‘Não Matthew, já estou meio tonta, melhor parar’
Matthew segurou em minha mão e me puxou pra mais perto dele. Abri meus olhos e ele olhava fixamente para mim.
‘Você é muito bonita’
‘Isso não é verdade, o álcool fala nesse momento’ – e sorri olhando pra ele
‘Pode ser, mas eu já te disse isso antes e estou repetindo. Deveria levar em consideração’
Matthew então se virou de lado e sem soltar minhas mãos, começou a fazer carinho no meu rosto, chegando cada vez mais perto de mim.
‘Eu preciso ir embora, acho melhor’
‘Não, não vai. Fica mais um pouco aqui’
E encostou seu rosto no meu, fazendo carinho com seu nariz por todo ele.
‘Matthew, é melhor a gente...’
‘Shhh, não fala nada. Faz tempo que estou encantado por você’
Matthew então me beijou. Um beijo daqueles demorados, quase de perder o fôlego. Em meio a carícias, Matthew deitou sobre o meu corpo e eu fui deixando acontecer.
Eu sentia desejo pela primeira vez. Desejo intenso. Meu corpo respondia naturalmente a qualquer movimento que ele fizesse.
E era bom, eu o queria e sabia disso e naquele exato momento parei de pensar e me permiti sentir." 

domingo, julho 17, 2016

Thick skin and elastic heart

Será que é a ansiedade, o frio ou a saudade do seu cheiro que me deixa assim, mole, cheia de nostalgias baratas?

Inconfundível sorriso no meio de milhões. Essa vontade louca de estar vivendo intensamente a cada segundo tira a minha concentração.

Eu fecho os olhos e retorno ao essencial, mas só consigo ver uma cena embaçada de sonho, onde vens e toca meu lábio daquele jeito que só a gente conhece.

A sua pele pode se confundir com a minha, misturando tudo aquilo que não me faz mal. Agradeço a preocupação, mas não me prive de passar mais uma noite acordada em seus delírios.

Sinto falta dos meus dias de adolescente, onde eu passeava pela grama verde e deixava aquele sol bater em meu rosto. Matava aula pra ver o sol. Mas sempre fui certa demais pra me libertar das responsabilidades.

Há uns dias tenho estado com uma fotos bem antigas em cima da minha escrivaninha. Aquele sorriso de jovem sonhador que quase perdi. E rio das bizarrices humanas que cometi.

O tempo correndo, correndo, indo lá na frente. Certeza, deve ser a ansiedade. Porque eu deveria estar estudando horrores e só consigo me concetrar na cena embaçada.

É o querer de tantas coisas que se confundem que já não sei o princípio de tudo. Não se compra personalidade. Não se compra interesse. Não se compra espontaneidade. Não se compra conhecimento.

Não se paga a eterna paz de espírito. De ter liberdade de pensamento, de expressão, de alma.

É o frio, então. Tenho quase certeza. Afinal, quem mais odeia o frio que eu?. O sol tem que esquentar, tudo. Derreter. Escorrrer a chuva gelada.

Conversar, ouvir, entender. Tudo é tão fácil aos olhos de quem lê. Tão difícil aqueles que praticam. E você tem os três, quando abre aquele sorriso e faz aquela cara de entendido.


Seu cheiro. Não tenho mais pra onde correr. Seu cheiro que não sai de minhas roupas. Não sai da pele. Não sai da idéia.

segunda-feira, julho 04, 2016

"‘Madrugou hoje, Louis?’ – cheguei por trás dele, o assustando um pouco
‘É. Estava meio atordoado em casa, resolvi sair mais cedo. E você, tudo bem?’
Louis tinha o mesmo ar soturno de quando nos conhecemos, e fazia dias que estava assim, desde que eu tinha me afastado dele. Mas eu estava bem, tinha dormido horas a fio, sem me preocupar com horário ou problemas nenhum, nem ao menos tinha sonhado.
‘Eu? Está tudo bem sim’ – sorri ao olhar pra ele
Esse simples gesto causou espanto em Louis, por um momento notei que ele sorriu levemente e como sempre, sabia que lia meus pensamentos. E aquela foi a primeira vez que quis abraçá-lo.
Entramos no estúdio e fiz rigorosamente o que sempre fazia pelas manhãs. Ficamos conversando por um bom tempo enquanto o resto da banda não chegava. E seu tom soturno foi desaparecendo ao longo da conversa, como se aquela proximidade que tínhamos criado, tivesse voltado num piscar de olhos. Me sentia realmente feliz. Mas lá no fundo, ainda me sentia morta por dentro. Como se algo tão inocente e puro tivesse sido destruído de mim.
Não mais do que de repente, ele me perguntou sem rodeios
‘E seu namorado? Como vai?’
Estava de costas enquanto fazia o café e dei um sorriso quando disse, sem que ele pudesse ver
‘Que namorado?’ – e virei séria, colocando o café em sua xícara
Louis tinha uma expressão de surpresa e até um certo alívio quando disse isso, ele baixou a cabeça e sorriu.
‘Então, quer dizer que o namoro acabou?’ Acabou de verdade?’ – Louis me perguntou num tom de desconfiança
‘Sim, acabou. E acabou de verdade. Nunca mais quero vê-lo’
Louis não disse mais nada, só esticou seus braços pela mesa onde estávamos sentados em minha direção e pela primeira vez em dois meses, toquei suas mãos de ímpeto. Eram ásperas as pontas de seus dedos, mas a pele era fina e macia. Ele tirou a mão debaixo da minha e colocou sobre a minha, apertando e depois voltou a colocar por baixo, segurando ela, sem me olhar nos olhos. Me sentia aliviada e livre, quando continuamos conversando."