Eu já não durmo mais. Em algum lugar meu cérebro parou de funcionar e só o cansaço extremo me derruba, mas quando me derruba, eu não quero mais sair desse estado de anedonia. Levantar se transforma em vertigem. Tudo fica borrado e sem cor. A fome se foi, o prazer nas pequenas coisas se foram. As voz quase não sai e meu corpo inerte parece preso com pregos que já não doem mais.Dentro do peito um aperto que não passa nem com o choro em silêncio. As lágrimas não escorrem, o coração bate forte e insistente no peito só pra me lembrar que eu vivo. Em algum lugar, a minha alma está escondida, sentada em um canto escuro. A sensação de lutar com afinco por um objetivo se foi. E eu perdi algo que nem tenho, nunca tive e nunca vou ter. O que me restou foi a ilusão que eu mesmo criei e a corrente presa no pé da mesa. Eu olho pra chave na minha mão e não entendo porque não consigo abrir e caminhar. O túnel está cada vez mais escuro e catastroficamente o carro vai explodir naquele muro de onde não existe uma fresta de luz. Eu sinto tudo demais, mas quando algo para de me fazer sentir, eu sou só uma boneca de pano jogada num canto e empoeirada. O abandono toma conta, os pensamentos se misturam. E tudo o que eu mais brigo é com o tempo que voa. Eu não posso voltar. Eu olho pra dentro de mim e vejo todas as caixas que eu demorei pra colocar no lugar com todo carinho, tempo e dedicação, chutadas e remexidas. Eu permiti que entrassem e mexessem naquilo que eu tinha organizado com tanto cuidado. Não tinha nada colado, nada quebrado, nada que não tinha sido tratado com todo respeito. E simplesmente as caixas caíram, foram arremessadas, abertas e abandonadas, sem esmero, sem respeito. Eu as vejo, mas não consigo acessá-las. Porque junto com toda essa bagunça, uma parede ruiu e eu estou sem forças pra tirar os tijolos que me fazem chegar até lá. O cabelo cresceu, os brancos ficaram mais brancos, o rosto se tornou apático e sem vida, o espelho quebrou e quando eu quis toca-lo, meus dedos sangraram. E tudo o que ouço é o tic toc do relógio no ouvido, me provando que o tempo acabou e que só eu ainda estou parada no mesmo lugar.
Nenhum comentário:
Postar um comentário